Tantas coisas no ar

Tantas coisas no ar

Só quando você fica doente é que realmente reavalia a sua relação com o estresse. Deveríamos fazer isso antes, mas ninguém nos ensina a reconhecê-lo, nem a identificar os sintomas físicos que o acompanham. O estresse literalmente tentou me matar.

Nem todo mundo sofre um ataque cardíaco do tipo "widow maker" aos 47 anos e sobrevive. Cinquenta por cento das pessoas que têm 100% de obstrução da artéria descendente anterior esquerda (LAD), o que chamamos de widow maker, morrem antes mesmo da ambulância chegar. Você morre em questão de minutos a uma hora.

Tive sorte; muita sorte. E então passei muito tempo refletindo sobre isso.

O estresse é em grande parte o motivo de termos pressão alta, que dilata os vasos sanguíneos. Esses vasos têm um limite de resistência e vão se rompendo aos poucos. Nessas microfissuras é que o LDL, ou colesterol "ruim", se acumula e cria obstruções. Não morremos por causa do colesterol e das doenças cardiovasculares: morremos por causa do estresse.

Na nossa sociedade, odiamos o colesterol porque os médicos conseguem tratá-lo. Seria preciso uma mudança social ampla se quiséssemos atacar a causa raiz de por que o colesterol é prejudicial em primeiro lugar: o estresse.

Como banir o estresse da sua vida não é óbvio. Hoje sei que ele vai tentar me matar de novo se eu permitir. Tenho hoje uma reação muito visceral ao estresse, até violenta. Posso ficar muito brusco e até rude com as pessoas que geram estresse na minha vida. Isso gerou vários problemas diplomáticos para mim no trabalho.

O que causa estresse também pode ser algo muito pessoal. Eu reajo a certas situações, mas isso não significa que outra pessoa vá reagir da mesma forma. A verdade é: eu cresci com um forte transtorno de ansiedade, provavelmente gerado por uma combinação de traumas e pelo comportamento de alguns dos meus modelos de referência. Sei, com certeza, que não estou sozinho, mas também sei que talvez não sejamos totalmente representativos da população em geral, embora eu suspeite disso cada vez mais a cada dia.

Enquanto descobríamos a bela Arles, no sul da França, onde Van Gogh viveu, refletimos um pouco sobre a vida... Não me lembro bem como a conversa chegou a esse ponto, mas a essência foi algo como:

- Como você dá conta de tantas coisas?
- Eu jogo todas as bolas para o alto e depois vou tomar um café...

Eu bani o estresse da minha vida. E nunca voltarei atrás. Vou persegui-lo onde quer que se esconda e vou exterminá-lo. E vou trabalhar com quem precisar da minha ajuda para fazer o mesmo.

Esta foi uma lição muito útil para mim. Espero que se torne útil para alguns de vocês também.